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Do plantio à taça:  o Cerrado vence o azedume da uva e conquista o mercado de vinhos finos

Enxergar possibilidades além das commodities de grãos, em Goiás, permitiu o crescimento da vitivinicultura e a abertura promissora de novos mercados, agregando renda e emprego nos municípios

O solo adequado para plantio de grãos, agricultura mecanizada e irrigada, faz do cerrado responsável por 60% dos grãos entre soja e milho produzidos no país.  Mas, você sabia que o Cerrado também é um bom local para plantação de uvas viníferas? A região árida, caracterizada por solo avermelhado, de clima seco a primeira vista  não apresentava os critérios para receber videiras.

Mas  a paixão de um médico goiano  por uvas e vinhos provou o contrário. Do  pioneirismo de Sebastião Ferro surgiu a vinícola Serra das Galés, em Paraúna de Goiás, que produz mais de 30 variedades de uvas usadas na fabricação de suco de uva integral e vinhos finos, que já ganharam até prêmio internacional. A Vinícola Serra das Galés começou produzindo a variedade Vitis Labrusca, usada na fabricação de suco de uva integral e vinhos de mesa. Em 2013, Sebastião  passou a investir em três novas variedades para produção de vinhos finos e, em 2016, lançou o vinho da marca Muralha. E o  município de Paraúna, antes conhecido como um potente produtor de grãos,  conquistou  também o título de  maior produtor de uvas do Estado.

“A dificuldade que realmente a gente teve que superar foi a desconfiança de todo mundo de achar que eu estava louco, né.. Sebastião está louco querendo plantar uva aqui no cerrado, nesse ambiente que faz muito calor, muito sol. Mas a gente quando resolveu realmente plantar a uva, partindo para essa empreitada mesmo, a gente já tinha estudado muito”, lembra Sebastião.

O enólogo Valdir Antônio Cristófele, responsável pelos produtos, conta que, hoje, já são produzidas diversas variedades de uvas para fabricação de 15 mil garrafas de vinho tinto por ano. A fabricação de vinho branco já está em fase de testes. O volume colhido saltou de 120 mil quilos de uvas em 2007 para uma previsão de 560 mil quilos este ano. A maior parte é industrializada e o restante é vendido in natura.

Da engenharia e arquitetura para a vitivinicultura. O  casal Ricardo de Pina Martin e Sheila de Podestá embarcaram no projeto de viticultura motivados pelo genro Milton que já havia iniciado a vitivinicultura em sua fazenda (Vinícola Monte Castelo) e pela consultoria da vinícola Terra Nossa, do premiado enólogo e viticultor Chileno Cristian Sepulveda ( ex- Vinícola Guaspari).

Está em construção um receptivo no qual destaca-se a arquitetura com telhado invertido, lembrando as asas de um pássaro. A partir daí surgiu a ideia de nomear todos os rótulos com nomes de pássaros encontrados no cerrado goiano. O Engenheiro e agora  vitivinicultor Ricardo de Pina conta que em 2019 aconteceu o primeiro plantio, no ano seguinte a primeira colheita e em 2021 a família comemorou a primeira safra comercial com o Cauré, Syrah 2021, em homenagem ao pequeno gavião Cauré, o Tinto elaborado exclusivamente a partir de uvas Syrah mostra frutas vermelhas e negras seguidas de notas florais, de ervas e de especiarias picantes, que aparecem tanto no nariz quanto na boca, tudo apoiado por acidez vibrante e taninos aveludados. Tem final suculento, com toques de ameixas e de café.

O Engenheiro e agora  vitivinicultor Ricardo de Pina conta que em 2019 aconteceu o primeiro plantio, no ano seguinte a primeira colheita e em 2021 a família comemorou a primeira safra comercial.
Fonte: UEG/IBGE

Dupla poda possibilita safra de inverno

Enxergar possibilidades além das commodities de grãos, em Goiás, teve uma ajudinha do mineiro visionário, que adaptou ao cerrado a poda invertida, ou dupla poda. O professor Murilo Albuquerque Regina, engenheiro agrônomo, originário de Varginha (MG), passou bastante tempo na França, com destaque para seus estudos de fruticultura nas universidades de Montpellier e Bordeaux. De volta ao Brasil, trouxe as ideias e, com ajuda de outros que viram esta estratégia como uma solução interessante, o Brasil viu suas primeiras experiências em maior escala com dupla poda já no início da década de 2000.

Testes realizados nos últimos anos com videiras em algumas regiões mostraram as vantagens da poda invertida. Em uma comparação realizada em vinhedos em Cordislândia (MG), a uvas resultantes da poda invertida apresentaram teores maiores de sólidos solúveis, açúcares, antocianinas e outros compostos fenólicos do que aquelas de cultivo tradicional na mesma área. Isso mostrou que os chamados “vinhos de inverno” têm potencial maior do que os tradicionais “vinhos de verão” produzidos nesta área.   

O engenheiro agrônomo da EPAMIG, Francisco Mickael Medeiros explica as vantagens da dupla poda para a vitivinicultura no cerrado.

Mais qualidade ao vinho

A vitivinicultura  é tão promissora por aqui,  que a Universidade Estadual de Goiás criou uma escola experimental e a Superintendente de Produção Rural Sustentável da Secretaria de Agricultura do Estado (Seapa), Patrícia Honorato, lembra que o trabalho da Fazenda Escola da UEG de Ipameri,  conta até com uma vinícola, tem contribuído para aprimorar e ensinar um manejo mais adequado aos produtores do Estado.

“Já são 50 produtores iniciando na produção de vinhos finos em Goiás, que é mais elaborada”, ressalta a superintendente. Ela lembra que a vitivinicultura ainda é pequena no Estado, que está engajado num projeto de estímulo à produção e agroindustrialização.

No projeto da UEG, é feito o plantio de uvas de alta qualidade, similares às das melhores regiões produtoras no mundo, e a fabricação de vinhos desenvolvidos na unidade. A evolução dos plantios levou à criação de um programa de extensão com oferta de cursos para agricultores familiares, que qualificou mais de 120 produtores.

O coordenador do Projeto de Vitivinicultura da UEG, professor Roberto José de Freitas, conta que já montou uma coleção com diversas cultivares de uvas. Uma linha de crédito do Ministério de Ciência e Tecnologia, voltada para programas de agregação de valor à produção da agricultura familiar, foi utilizada para montagem da vinícola. Os produtores que participam do programa passam a investir em melhores variedades de uvas destinadas a vinhos finos.

O coordenador do Projeto de Vitivinicultura da UEG, professor Roberto José de Freitas

Nesta rede de apoio à expansão da produção de uva em Goiás, a Gerente de Educação Formal do Senar Goiás, Mara Lima, destaca os cursos e assistência técnica e gerencial disponíveis para o produtor de uva. Segundo Mara, o curso de cultivo de uva é presencial, ministrados em parceria entre o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural e os Sindicatos Rurais, nos municípios. A grade disciplinar aborda os aspectos econômicos do cultivo da videira, as características da planta, solo, fertilidade e nutrição para a viticultura, além de técnicas de manejo de solo e controle de pragas e doenças. Para mais informações, acesse aqui.

Além do curso presencial, Mara Lima reforça que a capacitação pode acontecer por meio do ensino à distância, em que, o interessado acessa gratuitamente a plataforma EaD do Senar Goiás e aprende, sem sair de casa, sobre a história da videira no Brasil, a viticultura em Goiás, técnicas de implantação do vinhedo. O curso é direcionado para quem tem interesse na produção de uvas no Cerrado goiano.

O leque de opções de aprendizado vai do campo à cidade, já que o Senar Goiás oferta também na modalidade online, curso sobre a história do vinho, a produção e harmonizações para apreciar e degustar com a culinária do Cerrado.

Enoturismo como estratégia de ampliar mercado

O turismo rural é outra ferramenta que pode contribuir para melhorar o ambiente de produção e a comercialização. As prefeituras de Pirenópolis, Cocalzinho de Goiás e Corumbá de Goiás a criaram um projeto para atrair os apreciadores de vinho e queijos, promovendo o enoturismo. A Rota dos Pireneus – Queijos e Vinhos de Goiás foi lançada no ano passado e reúne vinícolas e queijarias parceiras que ficam próximas a essas cidades.

A objetivo é que cada visitante crie a própria rota personalizada a partir da lista de estabelecimentos disponíveis. Conheça alguns:

Vinhedo Girassol (Cocalzinho)
Criado em 2015, a produção principal é de uva Syrah. O espaço promove aos sábados a Wine Tour, um passeio pelo vinhedo com degustação do vinho produzido a partir das uvas cultivadas no local. A visitação conta com menu gastronômico com lanche de boas vindas e almoço harmonizado.
Distância de Goiânia: 179 km
Endereço: BR 070 km 21, Cocalzinho
Informações e reservas: @vinhedo.girassol

Queijaria Alpina (Corumbá)
Os queijos são feitos a partir de vacas leiteiras da raça pardo-suíço, a mesma que fornece os laticínios mais tradicionais do país dos Alpes. O espaço oferece visitações guiadas com direito a degustação de todos os queijos produzidos por eles.
Distância de Goiânia: 105 km
Endereço: BR-414, Km 405 – Posse d’Abadia, Corumbá de Goiás
Informações e reservas: (62) 3334-8227 e @queijariaalpina

Vinícola Assunção (Pirenópolis)
A produção de uvas do local começou em 2015. Dois anos depois, começou a produzir e comercializar suco de uva integral e, no ano seguinte, iniciou a produção de vinho. Em 2021, a vinícola criou um roteiro de enoturismo e um bistrô localizados na fazenda, a 30 km do Centro Histórico. O local funciona de terça a domingo.
Distância de Goiânia: 117 km
Endereço: GO 338 – KM 41 à direita 7km, Pirenópolis
Informações e reservas: (62) 98501-3677 e @vinicolaassuncao

Calliandra Experiência Rural (Cocalzinho)
O projeto é da Calliandra Gastronomia Harmonizada e Bistrô Adega, que fica em Pirenópolis. A experiência rural é um passeio pelas parreirais da Fazenda Santa Rosa, em Cocalzinho de Goiás, seguido de um almoço acompanhado de vinhos regionais e nacionais, cervejas artesanais ou suco de uva. No local é possível adquirir queijos, geleias, mel, licores e pestos regionais.
Distância de Goiânia: 150 km

Reportagem Do plantio à taça:  o Cerrado vence o azedume da uva e conquista o mercado de vinhos finos também está em áudio divulgado na Rádio Bandeirantes Goiânia em 08/09/2023

Fabiane Fagundes
Fabiane Fagundes
Jornalista especialista em agronegócio com formação em marketing digital e psicóloga em formação.
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